Onde está a geração “Y” na TI do Brasil?

Vou começar esse artigo com uma informação que considero de extrema importância: eu tenho uma filha de 23 anos, cursando o último ano de Engenharia Química e que dentro do fator eminentemente classificação etária, é legítima representante da denominada geração “Y”, que tanto foi assunto em todos os eventos há cerca de dois ou três anos e que, no momento, como quase tudo nessa realidade cada vez mais fugaz, tem sido um tema menos recorrente, mas nem por isso de menor importância. Ou seja, convivo diária e intensamente com uma representante e seus vários amigos dessa famosa geração.


Vou me ater aos aspectos que tenho vivenciado no meu dia-a-dia nos últimos anos ao trabalhar na área de TI, muito próximo dessa moçada que vem ingressando no mercado de trabalho. E como a pergunta que titula esse post, a minha intenção ao descrever essas experiências é fomentar um pouco mais a discussão em torno de um cenário que me parece absurdamente distante de tudo que li, que escutei e que assisti desde a primeira vez que ouvi a expressão “Geração Y”.


Irrequietos, incontroláveis, impacientes para ascender a cargos de maior remuneração e projeção, avessos a estruturas formais, incluindo regras comportamentais e de vestuário; projetos pessoais muito acima de projetos corporativos etc.


Minhas dúvidas sempre recaíram no fato de que, na minha visão, quase todas essas características se permeavam também nos integrantes de todas as gerações anteriores de jovens ingressando no mercado de trabalho. Quem de nós, independente de sua idade atual, não sonhou em ser o dono da empresa em que trabalhava para poder ter o dinheiro e os bens materiais que desejasse?


Quem, ao sair da faculdade e entrar no mercado de trabalho, não tinha a cabeça cheia de ideias revolucionarias sobre o processo de produção que eram “muito melhores” que tudo aquilo que havia feito as empresas estarem estabelecidas e terem sucesso por tanto tempo? Quem não teve seus momentos de rebeldia, ainda que controlada e não expressada, sobre as falhas dos processos corporativos que impediam sua ascensão na forma adequada (pelo menos para nós)?


Assistimos muito desses anseios serem bem atendidos e excepcionalmente divulgados por muitas empresas do Vale do Silício, que incentivavam uma grande liberdade de atuação em nome de incentivar a criatividade de seus jovens profissionais, em sua maioria de uma geração anterior, a geração “X”. O grande número de resultados positivos nessa abordagem praticamente criou uma definição que estávamos diante de um novo processo operativo e produtivo das organizações e que a geração “Y” seria o grande ator dessa transformação.


Podia ficar desfilando essa análise “ontem Vs. hoje” pelos mais diversos assuntos. Porém, o meu interesse é tentar entender porque na área de TI no Brasil vivemos uma situação em que a geração “Y” se comporta de uma maneira muito mais alinhada aos procedimentos das gerações que os precederam e que não vingou, em praticamente nenhuma das nossas empresas, as modificações apregoadas há três ou quatro anos atrás.


Em praticamente todos os exemplos que presenciei de profissionais decidirem pela permanência na empresa atual, mesmo com ofertas mais tentadoras do ponto de vista profissional e em certos casos mais compensatórias financeiramente, essa decisão foi motivada sempre por aspectos tradicionalíssimos com amplo destaque para a importância que esses profissionais deram a uma suposta estabilidade na empresa e à tranquilidade de continuar atuando num ambiente sem grandes novidades e, consequentemente, sem sobressaltos.


Outros fatores determinantes para justificar esse comportamento tão antagônico à reputada ousadia foram: promoção de cargo (p.ex. de Trainee para Junior), aumentos pouco significativos de salário, promessas de programas de treinamento que tradicionalmente são engolidos nas revisões orçamentárias e elogios não tangíveis sobre sua importância vital na organização. Ao mesmo tempo, aspectos menos nobres, como a possibilidade de não ter um horário determinado para entrar no trabalho ganham uma importância desproporcional.


Cadê a geração “Y”? Em que lugar ficou a busca por desafios profissionais verdadeiros? Onde está a vontade de encarar desafios aceitando remunerações variáveis que podem trazer resultados muito maiores, mas dependem do resultado de sua atuação para o crescimento da empresa? Podia ficar aqui enumerando diversos “cadês?” e em todos eles veríamos sempre esses vieses tradicionais comandando as decisões.


De onde vem esse perfil de atuação pouco alinhado aos conceitos que originalmente definiam a geração “Y”? A origem vem na formação familiar mais protetora que praticamente não deixou a geração frente a grandes desafios? Ou vem de nossas escolas com grades de cursos muito antigas e cada vez mais longe das realidades e necessidades dos mercados corporativos? Ou de empresas que apregoam modernidade, mas conduzem estruturas, processos administrativos e operacionais e metodologias de avaliação e remuneração seguindo os modelos tradicionais?


Cada um desses aspectos tem sua parcela de contribuição para a formação desse cenário em que pouco se cria, pouco se modifica e, principalmente, pouco se inova, fazendo com que a potencial contribuição da geração “Y” descrita por sua inquietude, sua impaciência, sua facilidade de adequação e utilização da tecnologia e, em especial, sua ambição por posições e remunerações maiores e melhores, não sejam percebida pelo mercado e, principalmente, não determinem os rumos cantados em prosa e verso para as carreiras dos profissionais “Y”.


Ao atingir meus 58 anos, essa realidade me inquieta um pouco porque, a meu ver, com os primeiros exemplos tão representativos (aqueles do Vale do Silício com a geração “X” e empresas como Google no passado recente) minha expectativa era de uma revolução paulatina em que criatividade com efetividade se transformasse no grande direcionador das novas iniciativas no universo de TI.


Ainda dá tempo tanto para essa geração e também para as empresas reverem conceitos, processos e modelos, e aproveitarem o que há de melhor nesses profissionais; mesmo que em velocidade reduzida, contanto que seja contínua. Os protagonistas desse enredo são vocês: profissionais “Y”, gestores de TI e empresários.


*Artigo de Anderson Baldin Figueiredo para o portal CRN Brasil.

*Crédito da imagem: Wix.

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